terça-feira, 11 de outubro de 2011

Monólogo interior de Veronika do livro "Veronika decide morrer" de Paulo Coelho

Obra de Paulo Coelho que virou filme, ainda não assisti e ainda não li o livro inteiro, mas estou achando o máximo.
Essa parte é quando Veronika acorda, descobre que está viva (pois tentou suicídio), e faz um breve relato de como será sua vida dali em diante. Agora é só esperar pra ver o que acontecerá com a Veronika.
Acredito que muitas mulheres com o perfil parecido da Veronika: bonita, jovem, inteligente, simples e solteira... Irá se identificar com seus pensamentos sobre a vida.

Vamos ler o que Veronika andou pensando na cama do manicômio (apesar não aparecer amarrada na foto, no livro está de fato amarrada). Isso não importa Paty!!!
Enfim!


Estou viva, pensou Veronika. Vai começar tudo de novo. Devo passar algum tempo aqui dentro, até constatarem que sou perfeitamente normal. Depois me darão alta, e eu verei de novo as ruas de Lubljana, sua praça redonda, as pontes, as pessoas que passam pelas ruas indo e voltando do trabalho.
Como as pessoas sempre tendem a ajudar as outras - só para se sentirem melhores do que realmente são - eles me darão o emprego de volta na biblioteca. Com o tempo, voltarei a frequentar os mesmos bares e boates, conversarei com os meus amigos sobre as injustiças e problemas do mundo, irei ao cinema, passearei no lago.
Como escolhi os comprimidos, não estou deformada: continuo jovem, bonita, inteligente, e não terei - como nunca tive - dificuldades em arranjar namorados. Farei amor com eles em suas casas, ou no bosque, terei um certo prazer, mas logo depois do orgasmo a sensação do vazio voltará. Já não teremos muito o que conversar, e tanto ele como eu sabemos disso: chega a hora de dar uma desculpa um para o outro - "está tarde", ou "amanhã tenho que acordar cedo" - e partiremos o mais rápido possível, evitando nos olharmos nos olhos.
Eu volto para o meu quarto alugado no convento. Tento ler um livro, ligo a TV para ver os mesmos programas de sempre, coloco o despertador para acordar exatamente na mesma hora que acordei no dia anterior, repito mecanicamente as tarefas que me são confiadas na biblioteca. Como o sanduíche no jardim em frente ao teatro sentada no mesmo banco, junto com outras pessoas que também escolhem os mesmos bancos parar lanchar, que tem o mesmo olhar vazio, mas fingem estar preocupadas com coisas importatíssimas.
Depois volto ao trabalho, escuto alguns comentários sobre quem está saindo com quem, quem está sofrendo o que, como tal pessoa chorou por causa do marido - e fico com a sensação que sou privilegiada, sou bonita, tenho um emprego, arranjo o namorado que quiser. Aí volto aos bares no final do dia, e a coisa toda recomeça.
Minha mãe - que deverá estar preocupadíssima com minha tentativa de suicídio - vai se recuperar do susto e continuará me perguntando o que vou fazer de minha vida, porque não sou igual as outras pessoas, já que, afinal de contas, as coisas não são tão complicadas como eu penso que são. "Olhe para mim, por exemplo, que estou há anos casada com seu pai, e procurei lhe dar a melhor educação e os melhores exemplos possíveis".
Um dia eu me canso de ouvi-la sempre repetindo a mesma conversa, e para agrada-la me caso com um homem a quem me obrigo a amar. Eu e ele terminaremos encontrando uma maneira de sonhar juntos com o nosso futuro, a casa de campo, os filhos, o futuro dos nossos filhos. Faremos muito amor no primeiro ano, menos no segundo, e a partir do terceiro ano a gente talvez pense em sexo uma vez a cada quinze dias, e transforme este pensamento em ação apenas uma vez por mês. Pior que isso, a gente quase não conversará. Eu me esforçarei a aceitar a situação, e me perguntarei o que há de errado comigo - já que não consigo mais interessa-lo, ele não presta atenção em mim, e vive falando dos seus amigos como se fossem realmente o seu mundo.
Quando o casamento estiver realmente por um fio, eu ficarei grávida. Teremos o filho, passaremos algum tempo mais próximos um do outro, e logo a situação voltará a ser como antes.
Então começarei a engordar como a tia da enfermeira de ontem - ou de dias atrás, não sei bem. E começarei a fazer regime, sistematicamente derrotada a cada dia, a cada semana, pelo peso que insiste em aumentar apesar de todo o controle. A esta altura, eu tomarei estas drogas mágicas para não entrar em depressão - a terei alguns filhos, em noites de amor que passam depressa demais. Direi a todos que os filhos são a razão de minha vida, mas na verdade eles exigem minha vida como razão.
As pessoas vão sempre nos considerar um casal feliz, e ninguém saberá o que existe de solidão, de amargura, de renúncia, atrás de toda aparência de felicidade.
Até que um dia, quando meu marido arranjar sua primeira amante, eu talvez faça um escândalo como a amiga da enfermeira, ou pense de novo em me suicidar. Mas aí estarei velha e covarde, com dois ou três filhos que precisam de minha ajuda, e preciso educa-los, coloca-los no mundo - antes de ser capaz de abandonar tudo. Eu não me suicidarei: farei um escândalo, ameaçarei sair com as crianças. Ele, como todo homem, recuará, dirá que me ama e que aquilo não vai mais se repetir. Nunca lhe passará pela cabeça que, se eu resolvesse mesmo ir embora, a única escolha seria voltar para casa dos meus pais, e ficar ali o resto da minha vida, tendo que escutar todo dia a minha mãe lamentar-se porque eu perdi uma oportunidade única de ser feliz, que ele era um ótimo marido apesar de seus pequenos defeitos, que meus filhos irão sofrer muito por causa da separação.
Dois ou três anos depois, outra mulher aparecerá em sua vida. Eu vou descobrir - porque vi, ou porque alguém me contou - mas desta vez finjo que não sei. Gastei toda a minha energia lutando contra a amante anterior, não sobrou nada, é melhor aceitar a vida com ela é na realidade, e não como eu imaginava que fosse. Minha mãe tinha razão.
Ele continuará sendo gentil comigo, eu continuarei o meu trabalho na biblioteca, os meus sanduíches na praça do teatro, os meus livros que nunca consigo terminar de ler, os programas de televisão que continuarão sendo os mesmos daqui a dez, vinte, cinquenta anos.
Só que comerei sanduíches com culpa, porque estou engordando; e não irei mais a bares, porque tenho um marido que me espera em casa para cuidar dos filhos.
A partir daí, é esperar os meninos crescerem, e ficar todo dia pensando no suicídio, sem coragem de cometê-lo. Um belo dia, chego a conclusão que a vida é assim, não adiante, nada mudará. E me conformo. - Página 15 - 16 - 17 (MONÓLOGO INTERIOR DE VERONIKA)

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